Quando comecei a pensar na pauta para esta matéria, muitas perguntas e questionamentos surgiram. Não queria falar sobre o “assunto do momento”, apenas por falar. O empoderamento feminino é algo que está sendo debatido aos quatro ventos (como deve ser), porém, fiquei com receio de não abordar profundamente a importância do que esse tema realmente significa, mais especificamente na moda.
Não queria a superficialidade da abordagem, senti que teria que usar minha voz na primeira pessoa, pelo assunto que viria a seguir.

FOTO PINTEREST
Foto da internet.

Me senti uma iniciante, quando fui apurar para escrever sobre o empoderamento feminino através da moda. Não conhecia a fundo nenhuma instituição ou organização que tratasse disso, não sabia de nenhuma marca que realmente estivesse falando sobre isso em toda a sua filosofia e postura, não lembrava de nenhum nome marcante que levantasse esta bandeira neste mercado. Confesso: uma total ignorante. Mesmo que eu seja do meio, trabalhe com moda, não saberia falar disso pois não tinha conhecimento de causa. O que, em se tratando de eu ser uma mulher e trabalhar com moda, na minha opinião, é muito ruim. Mas, não me culpo, acho que é assim que se aprende, questionando e buscando respostas.
Por causa disso, resolvi pesquisar mais a fundo e acolhi a indicação que veio da Carol Herszenhut (fundadora d’O Cluster) de entrevistar e conversar com a Lívia Amorim, que muito tem a acrescentar sobre esse assunto.
Portanto, a matéria [ que inicialmente seria publicada na revista d’O Cluster, mas por ter minha voz, virou post para o meu próprio blog], que no fim virou uma entrevista que, ao mesmo tempo, é reflexo dessa vontade de comentar sobre isso. Porque sim, me atingiu e me tocou. Porque precisa tocar mais pessoas. E, principalmente, porque precisamos aprender e trocar experiências e levar este conceito adiante.
Você precisa conhecer a Lívia e outras “Lívias” que fazem muito, que traçam o caminho para a humanização da moda, focada na valorização da mulher como indivíduo atuante na sociedade e no mercado de trabalho. A moda é uma das profissões que mais empregam no Brasil, e sua mão de obra é composta principalmente, de mulheres. Tantas mulheres que ainda trabalham em condições surreais de escravidão, em condições precárias, recebendo bem menos apenas pela condição de ser do sexo feminino.
É hora de pensar sobre, debater tudo que for possível, é hora de agir.
Conheçam a Lívia.

Lívia Amorim
Lívia Amorim – idealizadora do Moda + Humana

“Muito prazer, sou Lívia Amorim, estilista, ativista e humanista.

Comecei minha história com a moda fazendo figurinos para teatro em Minas e Campos- RJ, que é a minha cidade.

Viajei o Brasil de mochilão nesta época vendendo artesanato e conhecendo o Brasil Profundo da Moda, ou seja, pequenas fábricas e cooperativas produtivas de costura e bordado.

Fiz faculdade de moda, montei minha marca, ganhei o Prêmio Moda Hype. Fiquei por dois anos no line-up do Fashion Rio e na Babilônia Feira Hype. Conheci estilistas e me foquei em desenvolvimento de produto para mim e para amigos. Fiz produto acabado para a galera toda nessa época. Produzia bem, ganhava pouco e me sentia escrava. A marca ia bem, mas, fechei a sociedade e um casamento. Decidi voltar e fazer MODA AMOR. Um projeto de moda com pouquíssima produção e parcerias bem afetivas. Produzia com cooperativas e gente muito simples. Saiu o projeto A+Mô, com produtos desse encontro. Decidi dar aulas e fui pra UENF- Universidade Estadual do Norte Fluminense, aqui em Campos. Me deram a possibilidade da minha vida: montar uma rede de desenvolvimento de produtos de moda e design com uma rede de 32 grupos de artesãs. Nasceu o MODA+HUMANA, um projeto de MODATIVISMO que tem como síntese humanizar os processos da cadeia produtiva da moda. Eu viajava e verificava condições de trabalho nestes pequenos pontos fabris, era tudo escravidão. Eu jogava tudo na internet, falava disso. Fui conhecendo ativistas e o ativismo. Fui me empoderando e me distanciando da moda que só visava lucro. Criei um projeto para educação infantil e moda: aulas em escolas públicas para crianças entenderem a moda feita pelas próprias mãos. Hoje estou em processo de Desenvolvimento de produtos de Re-cycling, a tentativa de uma primeira Coleção Colab e o desenvolvimento de Coletores de Roupa Resíduo.

O Moda+ Humana segue suave, mas bem firme. A luta é árdua, mas gratifica pacas. ”

Maria Claudia–  O projeto Moda + Humana é composto de artesãs, em sua maioria. Como este trabalho ajuda no desenvolvimento e fortalecimento (empoderamento) destas mulheres?

Lívia Amorim – Dar trabalho e possibilidade de independência financeira às mulheres é uma ferramenta muito poderosa. Na sociedade em que vivemos, onde 75% das mulheres ganham menos que os homens, isso se torna fundamental, um dever de quem milita em causas de direitos humanos. A mulher que tem equilíbrio financeiro da própria vida consegue dar voos bem mais altos rumo à liberdade e evolução pessoal.

MC–  A realidade da moda ainda está muito aquém do ideal, mas aos poucos a consciência está criando novos adeptos às maneiras mais sustentáveis e humanas de se produzir moda. No Brasil, pela sua visão, o que já está sendo feito, e o que ainda falta para que nossas fábricas e marcas apliquem a sustentabilidade e humanização como base de seus negócios?

L– Comecei a trabalhar com moda num tempo onde não se falava em sustentabilidade nem direitos trabalhistas de forma tão ampla quanto hoje. Eram tempos difíceis, duros mesmo. Eu cresci em meio a projetos sociais, minha mãe sempre foi gestora pública de Serviço Social. Vi a construção de várias cooperativas de costura, mas todas elas produzindo para atender o mercado que também escravizava. Não adiantava ter um ambiente legal de trabalho, mas atender a uma cadeia suja. Hoje, temos consciência e uma série de denúncias que amenizam esse mercado. Temos eventos colaborativos independentes, temos sites que focam na moda ética, temos mais estilistas engajados e ativistas, temos um canal de denúncias de trabalho escravo na cadeia produtiva da moda. Estamos de olhos e coração abertos e estamos juntos em defesa uns dos outros. O amanhã será melhor que o ontem.

MC– Para quem o Moda +Humana cria? Quem seria o público alvo desta iniciativa?
L– Para gente que não quer comprar apenas roupa. Pessoas que querem verdade no que vão vestir e que sabem que ao consumir um produto nosso estarão engajados nessa causa, nesse tempo das coisas. As roupas que desenvolvemos hoje ou são feitas por Colab, ou pequenas cooperativas de comércio justo, ou Recycling. Nada é por acaso, tudo tem história. As peças de Recycling vem com a memória afetiva do vestir, é um processo muito sensível, muito amoroso.

MC–  Qual o impacto que os projetos independentes geram na realidade de mulheres, que, como você, optam por empreender e lutar pelo que acreditam?

L– A independência empodera, dá ânimo, cria potência. Fazer o que acredita e seguir vivendo disso é um privilégio. Eu recebo cada dia a benção de poder construir o meu trajeto dessa forma. Do jeito que eu escolhi. Agradeço por isso.

MC– Que mudanças na sua vida, foram sentidas a partir do momento que você decidiu abandonar a cadeia de produção comum, para apostar em um projeto que luta por uma causa?

L– O primeiro momento é desesperador, você tem a certeza do que você não quer, mas não sabe o que quer e como fazer. Eu me recolhi, me escutei, me procurei e falava baixinho para mim mesma: vai ficar tudo bem. Eu decidi que precisava de pouco para viver, eu queria mesmo era ser honesta comigo, com quem trabalhava comigo. Aos poucos fui estudando, tecendo uma teia de parcerias com gente muito engajada, muito envolvida. Fui acreditando e sonhando junto. Fui deixando “o eu” ser “o nós” e conquistando coletivamente os espaços. Hoje sou resultado disso.
MC- Que conselhos você dá às mulheres que têm medo de abandonar seus empregos “normais”, mas desejam seguir uma vida com mais verdade, porém, tem medo de trocar o “certo” pelo “duvidoso”?

L- “Tudo pode acontecer, inclusive o nada”. Ouvi essa frase do Ronaldo Fraga e isso me sensibilizou. Ter a certeza que só seremos felizes nos respeitando e nos amando é a chave desse portal. Eu jamais voltaria para o lugar da infelicidade, sigo consciente das escolhas e batalho com força e motivo. Não tem como dar errado não (risos).

Foto1
Laboratório de design sustentável da ITEP UENF
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Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Trabalho de desenvolvimento de produtos com cooperativa de economia solidária Coopmar.

 

Foto3_Croqui de Leo Malta
Croquis: Leo Malta

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Ganhando Força No Mercado de Moda
Marcas nacionais e internacionais já percebem que fazer a diferença é o “new black”. Se posicionam defendendo justamente a diversidade e escolhas. Algumas campanhas como a mais recente da C&A, visam empoderar o indivíduo como sendo dono de suas próprias escolhas, inclusive para se vestir.
Esta veia se espalha e atinge mercados antes limitados a corpos idealizados por campanhas estreladas por exemplo, com as Angels da Victoria’s Secrets. Na contramão de modelos físicamente inatingíveis, algumas labels vem se estabelecendo e conquistando mulheres que se reconhecem em suas campanhas. É o caso de uma delas ,da marca de lingeries da modelo Ashley Graham.
Assista o vídeo da campanha #ImNoAngel  de sua marca Cacique:

Para as grifes, ficar para trás, engessadas em antigos conceitos, diante desta nova realidade, é bastante arriscado. Assumir que as diferenças existem, que as mulheres estão cada dia mais conscientes do seu lugar de direito na sociedade e que elas contribuem para que o mundo se desenvolva em todos os aspectos, é primordial para qualquer marca que pretenda se posicionar no mercado de moda. Ter consciência disso e aplicar este pensamento em todos os seus processos, a tornará verdadeira e alinhada com os novos rumos da moda.

Nota da autora:
O empoderamento acontece através da inspiração. Seja ela interna, como motivação de uma verdade que toma conta de você e acaba atingindo tudo que você faz, seja através da inspiradora trajetória de outra mulher, que, assim como a Lívia, acreditou na sua verdade e apostou todas as suas fichas nela.
Pessoalmente, gostaria que o empoderamento não se tornasse apenas “modinha” para fazer bonito nas redes sociais. Mas que virasse cotidiano, sendo parte de uma realidade em todas as empresas e relações profissionais que envolvem a moda.
Já passei muito perrengue neste mercado, muitas vezes por não ser um estereótipo de “quem trabalha com moda”. Por eu ser diferente do que esperavam de mim. Acredito que tenha perdido oportunidades em alguns lugares, pois eu não fazia exatamente o “perfil” da marca, refletindo algumas vezes a própria pessoa do dono ou dona da marca. Resumindo: em algumas entrevistas, com toques de colegas de profissão, eu teria que vestir um “personagem”, de acordo com o perfil daquela marca, para que fosse aceita e tivesse chance dentro de certas empresas. Ou seja, não poderia ser analisada apenas por minhas competências e experiência. Sabe “O Diabo Veste Prada”? É mais ou menos por aí.

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Foto do Pinterest

Morria de vergonha de dizer que era formada em moda. Achava “bobo”, porque assim me foi passado pela sociedade. Concluindo duramente, era assim que eu mesma me enxerguei durante algum tempo. Reflexo do que eu via acontecendo há anos no mercado.
Comecei a acreditar no meu potencial, após muitos anos ralando (são vinte anos trabalhando com moda e figurino, em diversas vertentes), e, não tenho mais vergonha de dizer que sou sim, uma profissional de moda capacitada. Cheguei bem mais longe assim. Conheci mais gente indo na mesma direção e ganhei experiências novas. Incentivei e sou incentivada diariamente por mulheres que, como eu, estão ganhando reconhecimento e respeito na moda brasileira por seu potencial.
Sigo aprendendo e me inspirando, pois, histórias de vida como esta, são uma injeção de ânimo para acreditarmos que somos capazes de ir onde quisermos. A valorização pessoal e profissional e acima de tudo, respeitar a sua verdade é muito importante para dar o primeiro passo em direção à felicidade e realização profissional e pessoal. Ganhamos mais força, dando força umas às outras.
Maria Claudia Pompeo

portfólio: [modamc.wix.com/mcpompeo]

Foto Ilustrativa Final da Matéria
“No dia 8 de março de 1857, trabalhadores de uma indústria têxtil de Nova Iorque fizerem greve por melhores condições de trabalho e igualdades de direitos trabalhistas para as mulheres. O movimento foi reprimido com violência pela polícia. Em 8 de março de 1908, trabalhadoras do comércio de agulhas de Nova Iorque, fizeram uma manifestação para lembrar o movimento de 1857 e exigir o voto feminino e fim do trabalho infantil. Este movimento também foi reprimido pela polícia.

 No dia 25 de março de 1911, cerca de 145 trabalhadores (maioria mulheres) morreram queimados num incêndio numa fábrica de tecidos em Nova Iorque. As mortes ocorreram em função das precárias condições de segurança no local. Como reação, o fato trágico provocou várias mudanças nas leis trabalhistas e de segurança de trabalho, gerando melhores condições para os trabalhadores Norte Americanos”. – Fonte: suapesquisa.com

Links:

Moda + Humana
Itep – Uenf – Incubadora Técnológica de Empreendimentos Populares
Turbante.se
Empreendedorismo Rosa
Empodere Duas Mulheres
Revista Vertigem (Tudo Que Você Quer Saber, Contado Por Mulheres)
Bordados #Girl Power
Carol Rossetti
Turbantize
Man Repeller (Blog de Leandra Medine, a premissa é a de se vestir para si mesma, não para agradar o “universo masculino”)
Cacique Lingeries (Envio para o Brasil)
Indique Uma Mina (jobs indicados por mulheres para mulheres). 

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