Somos bombardeadas com informações sobre beleza, moda, tendências, quem usa o quê, o que está in, o que está out, as vitrines nos convidam para comprar com mil descontos, facilidades, promoções, “venha! entre! compre!” toda hora. Dá aquela sensação de não sabermos mais quem somos em meio a tanta oferta. Nos perdemos ali, entre imagens lindas, preços convidativos, vontade de ter, de possuir um pedacinho daquela felicidade toda que vendem. Mas, de fato: o que queremos? O que VOCÊ quer? Quais são suas escolhas reais?

Responder a essas perguntas reverbera por todas as áreas de nossas vidas. Até no que escolhemos ao nos vestirmos. Até mesmo na maneira como nos enxergamos no espelho. São as escolhas que nos afetam diretamente em nossas vidas e o mais importante é identificar por que as fazemos.

Nas nossas escolhas em relação à moda, uma blusa em promoção, por exemplo, pode não ser apenas uma blusa em promoção. Suas buscas internas e as motivações para chegar até ela é que a definem. Hoje, me pego vendo a composição de uma peça de roupa, onde foi fabricada, se tem fundamento realmente comprar “mais uma blusinha preta”, se realmente preciso dela naquele momento ou se tudo não passa de um impulso. A consciência sobre o consumo está mudando a passos largos. Isso é um fato. Estamos mais comedidos, mais ponderados, e isso inclui adquirir novas roupas. Mas aí também penso (aquele diabinho que mora sentado no nosso ombro): e daí se for por causa de um impulso que quero essa blusa? E se eu estiver precisando aliviar a cabeça numa comprinha inocente, levar para casa um presente para mim, só para deixar de pensar um pouco na pilha de problemas que se acumulam sobre meu travesseiro à noite?

Sim, os problemas não vão acabar e a tal da blusinha não é a solução, mas ela se torna um afago, um “ato de rebeldia” em meio a tantos prazos e contas, cobranças internas e externas, dietas, cabelos brancos novos surgindo todo mês, inchaços, TPMs, um engordar e emagrecer eternos, e vontades intermináveis de largar tudo isso e fugir do país. Ela não é apenas uma blusinha em promoção. Ela é a minha blusinha do amor-próprio. Mas ela poderia ser qualquer outra coisa. Um par de tênis, uma tarde num spa, tratamento completo no salão ou a “ousadia” de pedir um delivery japa só pra mim.

Por que temos tanta culpa e temos que justificar tudo o que fazemos por nós mesmas, o tempo inteiro? A culpa vem, é inevitável e muitas vezes ela é você quem produz. Tem uma hora que cansa ter que se responsabilizar tanto, se policiar tanto o tempo todo. Aí também entra meu ascendente, o mais impulsivo dos signos (Áries), me dizendo que tudo bem ser um pouco criança que se atira de vez em quando. “Tudo bem, querida. Vai ficar tudo bem. Calma. Compra logo essa blusinha e divide! Isso! Par-ce-la a dita-cuja. Eu sei que ela está em promoção, mas, fazendo assim, você só empurra a culpa até o meio do ano. Mas vai pagando em doses homeopáticas ao longo de cinco meses, para lembrar que todo impulso gera consequências. Até uma compra inocente.”

Veja bem, não há nada de errado em querer largar tudo e sair correndo. Mas é bem mais sensato controlar essa energia de ebulição interna com algo que te faça bem. Você pode encontrar essa libertação indo a uma aula de ioga, ganhando uma massagem nos pés, tirando um cochilo despreocupado no meio da tarde, tomando um sorvete de casquinha, um porre homérico ou comprando uma peça de roupa em promoção (ou até com preço de lançamento, vá).

Tenhamos uma relação mais amigável com nossas escolhas, porque o mundo já anda muito duro. São muitos dedos apontados, muitas curtidas e não curtidas para lidar, agora até com carinhas cheias de reações (para demonstrar o grau de aceitação ou desprezo por alguma coisa), tem muita placa dizendo o que devemos fazer, por onde ir, muito grupo no WhatsApp, muita mensagem de autoajuda rolando solta. Escolher uma peça de roupa não deveria virar uma tortura tão grande assim. Escolhamos com consciência, sim, mas tenhamos um pouco mais de leveza. Parar um pouco com as cobranças internas. Se sentir muita culpa e isso atrapalhar seu sono, use a tática do desapego. Para cada peça que entrar, duas saem. Seu coração vai sentir o afago e sua consciência dormirá tranquila.

Me libertei há pouco tempo dessa culpa toda ao sair para comprar roupa quando me dá na telha, mesmo que a motivação seja só distrair. Aprendi também muito sobre mim, quando exagerei nos meus impulsos: que preciso abrir espaço aqui dentro para o novo, mas que, também, preciso aprender a deixar ir o que não me serve mais. Ah, claro, isso serve para as minhas roupas também.

Neste ano que ainda está no começo, que nossas escolhas sejam feitas de forma mais acolhedora, absorvidas pelo coração e com a certeza de que delas virão aprendizados. Que nossas roupas do corpo não carreguem sobre elas um sentimento de culpa e autocobrança, mas sim uma vontade incontrolável de sermos felizes.

E você? Com que roupa quer ir em 2017?

(Artigo que escrevi originalmente para a Revista Vertigem, pensando sobre a culpa que nós mulheres carregamos até nas escolhas de nossas compras, até nas nossas escolhas “fúteis”. Por que tanta culpa?)

Fotos: Pexel.com, Pinterest e Google.

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