Matéria feita por mim, originalmente publicada na Revista d’O Cluster

Na velocidade da luz em que a tecnologia avança, a busca pelo consumo consciente aparece na contramão deste ritmo acelerado. Em contrapartida a todos os “fast” ( fashion, food e  lifestyle) que cercam nosso cotidiano, valores de um tempo passado reaparecem e dão novo fôlego em meio às necessidades mais imediatas. A preocupação em não rotular e não massificar produtos e a sociedade, está em pauta globalmente e aparece em ações, eventos envolvendo o tema, em novos conceitos empreendedores que refletem diretamente nas questões de consumo e em nossas tomadas de decisão diárias. A onda slow invadiu nossos hábitos e se propagou também em outras frentes deste movimento como o no label, ou, sem marca, e na moda mais recentemente, a ideia de não existir gênero no estilo de se vestir, em inglês: no gender.

Devagar é que se anda   

O jornalista italiano Carlo Petrini  é o fundador do movimento slow food que surgiu em contraposição ao termo “fast food”. Formalizado em 1989 como associação internacional perpetua e ganha força até hoje. “Basicamente ser slow é saber degustar os momentos da vida com tempo e espírito sócio-responsável. Hoje, são mais de 100 mil membros apoiadores em mais de 150 países”.

Ficar sempre por dentro das tendências de moda é uma corrida contra o tempo. Com cada vez mais coleções e coleções cápsula, as marcas nos “entopem” de cores, estampas, novas modelagens, acessórios, mix de produtos sem fim em um ritmo frenético. Mas, em tempos de consumo consciente, muito se tem falado sobre o slow fashion. Como o próprio nome diz, é a moda que chega mais lenta, sem a preocupação em se prender a tendências e estações, sendo consumida com mais consciência. O slow movement leva em consideração que nem tudo que consumimos é totalmente necessário. É a filosofia da busca em restringir-se às suas necessidades básicas, buscando o que realmente você gosta dentro do seu guarda roupa, se ater a isso e praticar o consumo consciente em todos os níveis.

O termo slow fashion foi cunhado pela britânica Kate Fletcher em 2007 (professora de design de moda sustentável no Centro para Moda Sustentável no Reino Unido). Ela assume que se inspirou na ideia de Carlo Petrini e levou este mesmo pensamento ao mundo fashion. Segundo ela, “a slow fashion não é uma tendência sazonal que vem e vai como a animal print , mas um movimento de moda sustentável que está ganhando força. Quando percebemos que não precisamos comprar novas tendências a cada seis semanas, como os varejistas fast fashion nos empurram , damos um passo para trás e reavaliamos o que é realmente importante para nós. Essa consciência slow fashion não significa necessariamente que precisamos fazer tricô para fazermos nossas próprias meias; mas nós simplesmente precisamos tomar decisões de compra mais conscientes.”

As recentes tragédias envolvendo marcas de fast fashion internacionais em que o trabalho escravo foi tema de debates por todo o mundo, alertaram  para a valorização da manufatura. Há uma busca pela qualidade, não só em termos de produto, mas também em saber sobre em que circunstâncias o que consumimos foi produzido. A qualidade envolvendo todos os processos da produção até a hora em que o produto acabado chega no consumidor, é a principal preocupação do consumo consciente.

H&M

As marcas de fast fashion estão se posicionando a essa nova realidade e a H&M foi uma das primeiras a perceber que precisava tomar medidas em relação a sustentabilidade.
 Segundo o jornal português Público, o esforço da H&M em tornar suas práticas sustentáveis aparece claramente em todos os aspectos de sua produção:
 “A marca sueca apresentou o relatório de sustentabilidade referente ao ano de 2014 onde realça a vontade de usar apenas eletricidade renovável e materiais amigos do ambiente na produção das suas peças. Pioneira na sustentabilidade ambiental, no 13.º relatório Conscious Actions Sustainability a H&M apresenta dados concretos sobre a quantidade de produtos feitos a partir de peças recicladas, a percentagem de materiais orgânicos utilizados em 2014 e a expansão da lista pública de fábricas fornecedoras. A nível global, os funcionários das lojas tiveram também formações sobre sustentabilidade.”

Outra das campanhas que deu frutos foi a de recolher roupas usadas para reciclagem (qualquer pessoa poderia depositar todo o tipo de peças e em qualquer condição nas lojas selecionadas e por cada saco de roupa entregue, a marca oferecia descontos dedutíveis na compra seguinte): em 2014 a H&M recolheu mais de sete mil toneladas de peças de roupa, o equivalente ao tecido necessário para produzir 38 milhões de camisetas.

Na mesma linha, a H&M anunciou uma parceria com a marca Kering e as tecnologias Worn Again para produzir tecidos inovadores. “É um projeto que pode mudar a maneira como a moda é feita e diminuir a necessidade de extrair recursos virgens de nosso planeta”, explicou à Vogue britânica Anna Gedda, diretora de sustentabilidade da H&M.

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Além de apostar em tecnologias sustentáveis, a marca se juntou ao  Centro de Moda Sustentável, (onde Kate Fletcher leciona) na London College of Fashion no projeto de criação da primeira edição da Fashion Recycling Week, que começou no fim de agosto e vai até 6 de setembro.

Em  parceria com alunos da London College of Fashion, a H&M criou um projeto que monta vitrines produzidas a partir de peças de roupas usadas. A ideia é encorajar as pessoas a reutilizar e valorizar suas roupas de coleções passadas. As peças de designers ficarão expostas nas vitrines da marca em Dublin, Londres, Edimburgo, Birmigham, Leeds, Brighton, Bristol e Manchester. Esse projeto está diretamente relacionado à ação realizada para a coleta de roupas usada em sua rede de lojas e é uma maneira de reutilizar peças desta campanha.

Slow Fashion Brands

Algumas marcas internacionais já se posicionam como slow fashion brands em suas missões, visões e valores. Abaixo algumas que já são baseadas nesta premissa e mais informações sobre seu posicionamento no mercado de consumo slow:

Zady: Desde o seu lançamento, há dois anos, o e-commerce Zady tem liderado o movimento slow fashion, trabalhando seu acervo com cuidadosa curadoria, optando por bens de qualidade de marcas que utilizam práticas sustentáveis. E para iniciar uma revolução na indústria da moda em que as marcas são transparentes, em cada etapa do processo produção das peças Zady introduziu sua primeira linha de mercadoria no ano passado: uma camisola que veio acompanhada de um vídeo e uma série de fotos do making-of .

Cuyana: A filosofia por trás da marca pode ser resumida em duas palavras: “Menos e melhor.” A empresa apoia a ideia de manter um armário com menos opções, que, por sua vez, ajudaria a reduzir o desperdício a longo prazo.

Tom Cridland: A ideia por trás da é lançar peças atemporais com altíssima qualidade na produção e matéria prima, feitas para durar 30 anos ou mais, eliminando a produção realizada por terceiros e produzindo todas as peças de perto, dentro da própria fábrica da marca.

Patagonia:  A missão da marca é que ao produzir o melhor produto não cause danos desnecessários, utilizando o negócio para inspirar e implementar soluções para a crise ambiental. A Patagonia cresceu a partir de uma pequena empresa que fazia ferramentas para alpinistas.

O projeto Slow Food por aqui ganhou proporções baseadas no movimento já existente mundialmente, o Slow Food Network, que tem a intenção de divulgar feiras e eventos orgânicos, de pequenos produtores, além de informar e atualizar sobre as realizações em torno do tema. Jovens de diversas áreas estão engajados em disseminar a ideia do alimento consumido conscientemente. 
 Segundo o próprio site  do SFYN (Slow Food Young Network ) “(a rede) foi fundada para familiarizar os jovens com a filosofia do Slow Food, que diz que todo alimento deve ser bom, limpo e justo.”

Minas Gerais adere ao Slow Food    

Em Minas Gerais, o comerciante Cássio Avelino está entre os empreendedores que enxergaram uma oportunidade no mercado de slow food. Segundo ele: “Minha loja é um estilo de vida. Eu não vendo somente um produto. Eu vendo a história dele também, que é conseguida com minha pesquisa sobre as comunidades e os modos de produção”. Avelino tem entre seus clientes, chefes de cozinha de todo o país e pessoas que acreditam pagar o valor justo por um produto que não passou por uma imensa linha de produção. “A garrafa de meio litro de azeite de babaçu custa R$ 30. Tem sabor de amêndoas e serve para frituras”, indica.

Sem rótulo

Aqui no Brasil, principalmente nas cidades do interior do país, a cultura de comprar em pequenos armazéns produtos a granel expostos de maneira que o cliente tire a quantidade que deseja, é bastante comum. Em Berlim, na Alemanha, este costume foi pensado de maneira semelhante mas alinhado às novas mentalidades sócio – culturais.

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O supermercado “Original Unverpackt” não permite em sua loja produtos previamente embalados em sacolas ou embalagens de plástico. Por lá, o consumidor passa por uma experiência singular. Os produtos ficam expostos em recipientes de vidro, onde com seu próprio pote e recipiente trazido de casa, armazena e embala o que vai levar. As sacolas também vem de casa junto com o cliente. Caso a pessoa vá despreparada a solução encontrada no Unverpackt é que você pode comprar a embalagem ou sacola lá mesmo, para levar suas compras.  A ideia é que as pessoas tenham mais consciência na hora de adquirir um produto e se habituem a pensar antes de comprar por comprar, passando a responder às perguntas: “o que?” “por que?” e “como?” em seu dia a dia. Alinhado a este pensamento, o supermercado ainda disponibiliza informações sobre os alimentos que comercializa, como sua procedência e ingredientes utilizados.

Assista [em inglês] um vídeo sobre o Unverpackt:

Indubitavelmente há uma mudança sendo observada nos hábitos de consumo. Não só na área alimentícia, mas como um todo, consumidores vem se tornando os porta-vozes de suas escolhas pessoais em relação ao que compram, por que e como compram.

A valorização das escolhas pessoais livres em oposição ao que nos é imposto  habitualmente via publicidade e no comércio como o conhecemos, vem se refletindo em todos os âmbitos no varejo mundial.

A moda sem gênero vem chegando paralelamente a este consumo mais consciente. Andando de mãos dadas aos movimentos de opção sexual, em que vivemos transformações sociais importantes que aos poucos transgridem pensamentos relativos às opções de gênero, corpos e relações pessoais, a moda no gender parece ser o caminho mais natural a ser injetado ao varejo de um futuro bem próximo.

Não há nenhuma novidade ao termo, já que a androginia faz parte de nossa sociedade há séculos. Nos anos 1920 as mulheres adotaram silhuetas mais retas, inspiradas nas roupas masculinas, cortaram os cabelos curtos e assumiram posturas avançadas para o dito “comportamento feminino” desta época. Mas a moda sem gênero vai além da usual escolha “vou usar roupa masculina, ou feminina”. É justamente a neutralização de gênero abordada ao que vestimos, tornando as seções femininas e masculinas nas lojas algo ultrapassado em relação ao avanço nesse sentido.

Roupa não tem “sexo”, já podemos partir deste princípio para definir os Agenders. Aliás, este é o nome da pop up store instalada no primeiro semestre deste ano em três andares na imensa loja de departamentos Selfridges, em Londres. O conceito de não qualificar a roupa com gênero, é reproduzida em todo o ambiente. Como eles mesmos definem no link para os produtos no site: “Bem-vindos a Agender, uma celebração da moda sem definição. Junte-se a nós enquanto exploramos e examinamos os limites e barreiras de gêneros através da moda moderna, da música e de colaborações em design.”     

O importante é saber que essa tendência vem forte entrando em cada vez mais nichos nas marcas já consagradas dedicados a este novo poder da moda. Nas ruas o estilo também é encontrado e nas fotos do top fotógrafo de street style, Scott Schüman, o movimento foi reforçado em uma parceria com a Selfridges para a campanha da Agender. [ VEJA as imagens da campanha  aqui]

Faz sentido, afinal, roupas nada mais são que tecidos modelados, muitas vezes com estampas, que vestem os corpos que os escolherem. Seja o corpo que for, para o propósito que for. A moda é livre para que façamos nossas escolhas através dela e o no gender reforça essa ideia.

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Da Teoria à Prática

Em uma lista da revista InStyle, foram citadas algumas marcas internacionais que já tem como missão e valores a prática sustentável e sócio-consciente. Veja mais sobre elas:

G-Star Raw’s Raw for the Oceans collection: No ano passado, Pharrell Williams se juntou à equipe da G-Star Raw, e, juntos, formaram uma parceria com o projeto Vortex e Parley para os oceanos e criaram o  Bionic Yarn, um tecido eco-friendly feito de fibras obtidas a partir de garrafas plásticas recicladas encontrados no oceano . O resultado? Uma linha de new denim e vestuário de nova geração. [VISITE: G-Star Raw]

Woodzee: Para cada par de óculos Woodzee vendido, a empresa eco-chic vai plantar uma árvore. Além do mais, cada par é feito a partir de materiais reciclados, naturais e materiais biodegradáveis. [VISITE: Woodzee]

United by Blue: A missão da marca é despoluir a água. Para cada produto vendido a United by Blue irá remover uma quantidade de lixo dos oceanos e cursos d’água através de parceria com uma empresa que faz este tipo de trabalho. [VISITE: United by Blue]

H&M Conscious Collection: O varejista fast fashion recentemente fez da sustentabilidade um grande foco, e sua colaboração com o novo site de e-commerce de Olivia Wilde, o Conscious Co., é a prova de exatamente isso. Suas peças são feitas de algodão orgânico, seda de amoreira, e alguns modelos com lantejoulas feitos de plástico reciclado.

Amour Vert: O lema da marca é: “Com todas as costuras (pontos), um propósito”. Amour Vert (que se traduz “Amor verde” em francês) possui uma filosofia de design sem resíduos, que inclui produtos locais de fabricação americana, o uso de corantes não tóxicos e fibras sustentáveis. Além disso, para cada camiseta comprada, Amour Vert planta uma árvore. 
[VISITE: Amour Vert]

Style Saint: A linha se orgulha de usar 99% menos água em sua produção, utilizando uma seleção de tecidos sustentáveis e pagando 2000% a mais no valor dos salários da fábrica. Cada peça listada no site inclui uma etiqueta informativa que mostra como muitos litros d’água foram economizados e a quantidade certa utilizada na fabricação daquela peça e também quantos metros de tecidos sustentáveis forma usados. 
[VISITE:  Style Saint]

O ponto nas direções novas de consumo e comportamento é saber que o que está em pauta é a valorização e o peso de nossas escolhas. Há uma renovação em todos os âmbitos sociais e é inevitável observar a necessidade desta pausa para que o mundo como o conhecemos hoje, não entre em colapso. Tornar a vida mais agradável para quem vive aqui, para quem consome e para quem produz, é o caminho mais relevante em se tratando de uma sociedade que já busca recursos sustentáveis para sobreviver.

Nossas escolhas nos definem. Portanto, pensar antes de consumir, procurar conhecer a procedência do que se está comprando, acostumar-se a responder por que você realmente precisa disso ou daquilo, irá naturalmente refletir em nosso sistema como um todo.

O futuro é muito próximo e é consequência direta do que fazemos hoje. Simples pensamento mas que abrange todos os nossos passos até lá. Fica lançada a ideia de que já existem alternativas a nosso alcance e que basta que sejamos conscientes, convivendo bem com nossas escolhas e as dos outros. Harmonia e equilíbrio no final das contas é o que nos levará a um mundo mais habitável e feliz.

 

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