Há poucos dias, minha amiga, a historiadora Palmira Margarida, sofreu plágio da marca carioca Farm, que pegou todos os textos que ela havia escrito  para a Revista Vertigem e copiou-os em um release da coleção, além de distorcer o sentido dos estudos de anos da Palmira com relação à camomila e o feminino, se apropriando desses conceitos, que são parte inclusive, de sua tese de doutorado. A marca admitiu MUITO depois de já ter lançando na internet, e depois de vários protestos na sua página, que sim, havia se “inspirado” nos textos que a Palmira fala sobre a camomila…Não, não foi inspiração, eles copiaram. Deram CTRL+C / CTRL+V nas falas dela. Não houve um acordo real durante a “criação” do tema, não sei a quantas anda os bastidores do caso, mas com certeza, eles vão tentar se esquivar mais uma vez das acusações de plágio e provavelmente vão propor um acordo de indenização à ela. Mas isso é muito grave. Eles apenas pegaram o que ela criou com anos de estudo, com embasamento técnico, voltado principalmente para as mulheres, para coisas bem mais profundas do que vender blusinha florida e resolveram usar isso como tema para a sua mini coleção chamada Camomila para vender roupa cara pra tamanhos ínfimos que não cabem em ninguém que não vista do tamanho 36 ao 40. Não seria bem mais ético se antes, nessa conversa sobre temas de coleção ( conheço bem essa dinâmica, been there, done that, que é sempre formada por uma equipe inteira falando sobre temas e escolhendo os melhores), tivessem proposto chamar a própria para uma parceria? Por que fazer as coisas assim? Pelo capitalismo, puro e cruel? Cadê o sonho e o feminismo, o empoderamento que eles prezam vender? Aliás, isso se vende? Cadê a sororidade real, e não apenas aquela falada da boca pra fora pra ficar in e ser hype e ser mais uma feminista de boutique?

Meu primeiro contato com a moda foi muito pequena. Desde uns 4, 5 anos de idade, eu comecei a perceber o poder de escolha nas roupas que vestia. Não queria mais me vestir parecida com minha irmã. Minha mãe gostava de colocar umas roupinhas coordenadas na gente, um vestido preto e branco em mim e outro branco e preto nela, sabe? Eu já desde muito cedo me lembro desse sentimento de querer ser única e não andar por aí, fazendo parzinho de vitrine com ninguém.

Corta para o colégio, onde me formei no segundo grau. Minha turma resolveu organizar um evento, para arrecadar fundos para a nossa festa de formatura. Como todo colégio americano, o prom tinha que ter festão, discurso, aquela coisa toda. Para isso, criamos um desfile de moda, entre pais e alunos. Todos participariam para ajudar no evento, cobraríamos uma entrada e assim, ganharíamos a grana pro mais importante: a festa.
Só que eu fiquei encarregada de produzir os looks, ir nas lojas com uma cartinha de autorização para pegar emprestado algumas peças (consegui apoio de várias lojas, jamais vou esquecer), além de ser uma das modelos do desfile. Adorava desfilar, posar pra fotos, sempre namorei revistas, ficava babando naquele universo.
O resultado foi que amei o frisson. Adorei os bastidores (desfilamos no MAM, bem antes de existir o Fashion Rio, que também passou algumas temporadas lá), produzir os looks, ajudar meus colegas a caminhar pela passarela (tinha feito um curso de modelo e manequim e sabia dar um pivô…risos).

Assim que saí do colégio e fui pro mundo, já infectada pelo bichinho fashion, descobri um curso de moda, a Escola de Moda Candido Mendes na Rua Sorocaba em Botafogo. Não tinha esse boom ainda de faculdades de moda, e por aqui no Rio, essa opção era a mais prática, porque o Senai Cetiqt ficava muito distante pra mim. Lá fui eu, cheia de sonhos, vontades, querendo ser uma estilista, ter meu ateliê, desenhar coisas lindas e ganhar dinheiro com isso.

Me formei dois anos depois, com um desfile no Museu Histórico Nacional em que a minha coleção foi baseada (inspirada) na Ópera Aída, de Giuseppe Verdi. Foi elogiada e ali, descobri que eu estava apaixonada de verdade por esse mundo.
Quando me formei, acabei desviando da moda e indo parar no universo de figurinos. Minha avó, autodidata e a melhor empreendedora que conheci, tinha um antiquário e ali, ela conheceu uma das maiores diretoras de arte do cinema brasileiro, e foi assim que ela fez um lobby básico pra eu entrar no cinema e estagiar no figurino do filme “For All – O Trampolim da Vitória” . Foi meu primeiro emprego, aos quase 20 anos. Ganhava uma ajuda de custo, que mal dava pra ir até a base, que era onde eu organizava os figurinos. Mas eu estava muito feliz. Ali aprendi que eu também havia me apaixonado pelo figurino, pelas pesquisas de história da moda, pelas buscas em brechós, pelo mundo dos cenários. Fiquei bastante tempo sendo chamada para trabalhos tanto na publicidade, quanto para o cinema. Saí de fininho porque a moda ainda estava ali dentro de mim, querendo pulsar.
Só que meu sonho de ser estilista de fato nunca se realizou. Fui tomada pela engrenagem capitalista, e precisei sobreviver, de emprego a emprego, freela a freela, deixando cada vez mais o que faz meu coração pulsar, guardado numa gaveta empoeirada.

Vivi problemas financeiros que me fizeram desacreditar no mercado, levei muitos nãos, criei meu próprio negócio de consultoria duas vezes, e agora, na terceira vez em voo solo me vejo novamente em um momento de decisões para que rumo tomar.

Tudo isso me fez pensar MUITO se valeria a pena, mesmo no desespero financeiro atual que estou, vivendo de freela em freela, voltar a trabalhar em alguma dessas grandes marcas, ganhar um salário pra voltar à engrenagem e conseguir pagar minhas contas sem ficar no especial, ganhando não muito (não pagam mais os salários de antigamente), mas o suficiente pra eu calar a minha boca e ficar ok, pois afinal “estou no mercado”. Mas isso só reafirma que não, não pretendo voltar para os velhos padrões da indústria da moda. Os velhos patrões, os gestores que só pensam em lucro, que calam os que realmente produzem ideias, calam os que fazem seus bolsos enriquecerem, a assistente de estilo que ganha às vezes mil reais, muitas vezes até menos, pra pegar dois ônibus e ir lá, dar ideias e ser trocada por outra que aceita receber um salário menor, pra trabalhar feito louca e depois ser descartada novamente. Não, sinto muito, não quero isso pra mim. Já estive lá, já aprendi muito, fiz amizades verdadeiras, mas não quero ser “mais uma” na engrenagem cruel do mercado de moda carioca.

Prefiro fazer o meu, poder escolher pra onde quero ir, e principalmente, SE quero ir. Quero trabalhar em empresas, caso entre em alguma, que me enxerguem como uma pessoa, que saibam quem eu sou, e que queiram e verdadeiramente se interessem em saber quem eu sou profissionalmente, que se interessem sobre quais são minhas inspirações e aspirações, o que posso oferecer, que me abracem, que não me vejam como um número ambulante. Será que essa empresa existe?
Um gestor uma vez me perguntou no meio do corredor da fábrica “quanto você está ganhando mesmo? ”, e eu respondi meio sem graça “mil e quinhentos, mas com descontos, acho que fica uns mil e duzentos”, no que ele disse “ah, é isso mesmo que ganham por aí no seu cargo” e virou as costas. Eu dava ideias pra marca, dava ideias para temas de coleção, mas não ganhava a mais por isso. Eu ganhava o “que ganham por aí” como assistente de estilo pra fazer meu trabalho de robô, mas quando precisaram de mim pra inspiração, eu fui muito feliz e dei a ideia da coleção inteira, além de batizar a próxima coleção com um nome que saiu da minha cabeça.
Alguns meses depois fui demitida “em meio à crise” e ninguém me aproveitou mais no mercado desde então. Já faz 5 anos isso. Desde então, estou lutando pelo meu lugar ao sol, não passo por cima de ninguém e não costumo guardar rancor, porque isso só faz mal a mim.
Meu apelo é para que as marcas de moda que ainda estão aí, de pé, apesar de tudo, enxerguem o seu funcionário. Vejam o que essa pessoa tem a oferecer, antes de sugarem tudo que puderem dela e depois descartarem ao vento.

Meu coração se despedaçou em mil pedacinhos quando fui demitida desse lugar, porque eu queria estar ali. Fui pra lá com a intenção de crescer. Aceitei entrar como assistente de estilo, mesmo depois de anos já trabalhando, aceitei o salário que me ofereceram com a promessa de que eu “ia crescer”. Me usaram enquanto podiam e depois fui descartada. Foi assim que me senti. Resolvi não entrar mais em nenhum esquema de fábricas assim, porque eu simplesmente não mereço.

Por isso, hoje, quando me chamam para uma entrevista e eu compareço, sintam-se lisonjeados e sem falsa modéstia, porque eu hoje escolho onde quero e com quem quero trabalhar. Não ressoou comigo, nem saio de casa. Não é que eu esteja “podendo”. Eu não sou rica, ainda não, ralo muito e suo muito para conseguir meus clientes de conteúdo, de consultoria. Mas não me dou mais o trabalho. Não é justo comigo. Aprendi a lição.

Continuo seguindo meus desejos e sonhos, quero e vou realiza-los um a um e com isso tudo eu digo a você também: não se venda por pouco ou quase nada, ou até por nada. Você tem seu valor. Não deixe que ninguém tire isso de você. Lute pelo seu espaço e por sua voz, não permita que te calem, e você, mulher, que é criativa e que quer ganhar o mundo, segura aqui na minha mão e vamos co-criar esse mundo mais justo pra gente, com salários dignos, denunciando os assédios sexuais no ambiente de trabalho, buscando justiça quando necessário, realizando e criando felizes nossas pequenas e verdadeiras realidades. Vamos nos unir, assim como nos unimos pela Palmira Margarida, que nem do mercado de moda é, mas que foi usada pelo próprio, apenas para lucro. Nos unimos com ela, e agora ela tem uma voz mais potente, não é só a voz dela clamando justiça. Vamos juntas. Juntas somos mais fortes e podemos mais. Juntas não somos concorrentes e sim, parceiras de criação.

*Foto: Unsplash

3 comentários em “Quanto vale desistir dos seus sonhos?

  1. Linda sempre e com uma autenticidade sem tamanho! Sei bem como é se decepcionar e ter sua ideia comercializada sem o seu devido valor! Não moro mais no Brasil entao posso te dizer que a arte esta cada dia mais perdendo espaço para a lei da demanda e do consumo! Tudo é tão fluido, copiável, volátil que acaba sendo estéril, fulgaz e quase descartável! Bom é manter a arte viva, a criatividade que nos enche de orgulho sim, mas pensar em silêncio e aprender a ver e deixar passar as “pequenas mentes pequenas” das “grandes” marcas que aproveitam retalhos de uma mao de obra vazia para montarem um mesmo cenario e chamar de coleção para “cabides” usarem!

    De fato lamentável mas é a verdade e o que eu penso sobre!

    Mil bjos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. É isso, querida…é uma triste e dura realidade, que esse capitalismo errado (não há nada de errado com o dinheiro, mas sim, a forma como ele é adquirido e distribuído), acaba com os sonhos de muita gente. Triste…mas eu ainda tenho fé e esperança que um dia o jogo vire.

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